LIBERTAR PAULO!
Por: Pe. José Bortolini, ssp.
Pobre apóstolo Paulo, o que fizeram com você nestes dois mil anos? Lá no começo, alguns cristãos não admitiam que você usasse o título de apóstolo (1Cor 9,2; 15,9) só porque não conheceu pessoalmente a Jesus de Nazaré. Ficamos intrigados com muitas coisas a seu respeito, por exemplo, o mutirão internacional que você promoveu para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém (Gl 2,10; 1Cor 16,1ss; 2Cor 8-9; Rm 15,30). Isso lhe custou atentados (At 20,3) e algumas calúnias (2Cor 12,16ss). Perguntamos o que foi feito com esse dinheiro? Por que Tiago saiu pela tangente, quando você chegou a Jerusalém com a ajuda, e fez vistas grossas, quando você foi preso? (At 21,17-29). Os problemas só estavam começando quando alguém que se faz passar por Pedro e não chama você de apóstolo, mas de irmão, afirma serem de difícil compreensão certas coisas que você escreveu (2Pd 3,15-16). De lá para cá, você foi visto como inimigo das mulheres e dos homossexuais; para a maioria, você não mexeu uma palha para socorrer os escravos, que chegavam a dois terços da população do império romano; fizeram de você um moralista chato e rabugento, além de considerá-lo capacho do império, por causa do título de cidadão romano, apesar de você nunca mencionar isso nas cartas (cf. At 16,37; 22,19). Tomaram seus textos e os transformaram em leis universais, válidas em qualquer tempo e lugar. Acusaram-no de trair seu amado Senhor Jesus e alguns afirmaram que você, e não Jesus, seria o verdadeiro fundador do cristianismo. Com o decorrer do tempo, você foi divorciado das comunidades e passou a ser visto como um teólogo profissional que pensa e produz teologia com base em coisas abstratas, sem contato com o chão e a vida do povo. O tempo passou, e os cristãos brigaram, fizeram guerras e se mataram, em parte por causa da carta aos Romanos... Ultimamente você entrou de cheio na liturgia da palavra das missas, em que se faz leitura contínua de suas cartas. Mas poucos são os que valorizam o que você deixou escrito. Agora foi instituído o Ano Paulino, um ano dedicado a você pelos dois mil anos de seu nascimento. Será que no fim de tudo você será mais conhecido e amado, tal como você amou o Senhor Jesus e as comunidades? Tomara que consigamos libertá-lo das algemas de nossos preconceitos, de modo que não tenha de arrastar a capa de chumbo que lhe impuseram nossas leituras descontextualizadas. PISTAS PARA LIBERTAR PAULO 1. Paulo e as culturas A língua é expressão de uma cultura, de modo que quem domina um idioma está a par da cultura expressa nessa língua. Paulo conhecia mais de uma língua e, supõe-se, suas respectivas culturas. Ele conhece o hebraico, o aramaico, o grego e talvez o latim. Para bem se comunicar no mundo greco-romano, teve de mergulhar nas culturas das metrópoles. Isso se torna interessante se compararmos a comunicação de Jesus e a de Paulo. Jesus limitou-se praticamente à Galiléia, vivendo e anunciando o Reinado de Deus nas aldeias. Os evangelhos não o mostram pregando nas grandes cidades da Galiléia — por exemplo, Séforis e Cesaréia Marítima, sede do poder de Herodes Antipas. O que vemos em geral é Jesus percorrer os povoados, indo ao encontro de pescadores e pequenos proprietários de terra. Ele conhece, por exemplo, a faina dos camponeses galileus e seus terrenos pouco aproveitáveis. É o que descobrimos lendo a parábola do semeador (Mc 4,1ss; Mt 13,1ss): chão duro, pedras, moitas de espinhos. Terra de enxada, não de arado. A linguagem de Jesus é tipicamente rural, sinal de que vive num contexto e cultura campesinos. Seus exemplos são quase sempre a terra, as sementes, o trigo e o joio, a videira e os ramos, o pastor e as ovelhas, os pardais e os lírios, a rede e os peixes, a mulher amassando o pão ou girando o moinho... Paulo, ao contrário, nasceu e cresceu numa metrópole, Tarso, com suas escolas filosóficas, mercado de escravos, festivais de cultura e muito esporte. Ele é homem de cultura urbana e se dirige a pessoas de cultura urbana. Não se comunica apenas oralmente, mas também por escrito, por cartas. Nelas o vemos falando uma linguagem inculturada. Em outras palavras, ele recria a mensagem com base nos valores culturais da grande cidade. Ele fala, por exemplo, do arquiteto (1Cor 3,10-17), dos espetáculos nas arenas (4,9; compare com 2Cor 4,8-10), do pedagogo (1Cor 4,15), da compra (resgate) de escravos no mercado (1Cor 6,20; 7,23; GI 3,13; 4,5; Rm 3,24). Em seus escritos estão presentes as competições esportivas, elemento bastante estranho à cultura judaica da época (atletismo: 1Cor 9,24-27; Fl 3,13-14; 2Tm 4,7; pugilato: 1Cor 9,26b). Toma como comparação o soldado (armado: Ef 6,10-17; vencedor: 2Tm 4,7); fala dos instrumentos musicais (1Cor 14,7-8); conhece a parada militar dos generais vencedores e sabe que o povo a aprecia (2Cor 2,14-16). Toma como exemplo as "colunas" de feitos memoráveis dos chefes de Estado para falar dos próprios "feitos" dos quais se orgulha (2Cor 11,23-28; compare com a Coluna de Trajano no centro histórico de Roma). Paulo nos alerta: a grande cidade produz uma cultura, valores e desvalores próprios. Sem conhecê-los, arriscamo-nos a estar falando às paredes. Como falar de Jesus bom pastor quando por pastor as pessoas entendem aqueles que ficam gritando na TV ou no rádio? Num país ou continente que desconhece o pão, como falar de Jesus, que se denominou pão da vida?
2. A busca da verdade O tempo e as leituras descontextualizadas fizeram de Paulo um teólogo intransigente e ameaçador (barbudo, cara fechada, portador de espada...). Torna-se difícil vê-lo sob outros ângulos, mas isso é extremamente necessário se queremos que ele nos ajude a discernir o tempo presente. Paulo não teve medo de se encontrar e debater com quem pensava de modo diferente. É Lucas quem confirma essa noção, situando-o no coração do helenismo — Atenas — em diálogo com as elites do saber e com os formadores de opinião (cf. At 17,17). Em grego, a ação de Paulo é esclarecida mediante o verbo “dialog-izomai”, e isso explica tudo. Ela se dá na ágora, na praça, novo lugar de anúncio de Jesus Cristo. O apóstolo escuta e fala com epicuristas e estóicos. Mais tarde, Lucas o mostra dando aula em Éfeso, na escola de Tiranos, por dois anos (At 19,9-10). Os estóicos influenciaram bastante a vida de Paulo, como se pode deduzir das orientações que dirige às comunidades por meio das cartas. Alguns exemplos ajudarão a perceber como os valores dos diversos grupos filosóficos (cínicos, estóicos) estiveram presentes em sua vida. Quando, em Fl 4,6, pede aos filipenses que não se perturbem com nada, está propondo-lhes o princípio estóico da imperturbabilidade. Os contatos das cartas com esse princípio são muitos. O próprio apóstolo demonstra servir-se do mais elevado valor da escola cínica — não depender dos outros, contentar-se com o suficiente etc. Nesse sentido, Fl 4,10-20 é paradigmático. Pode-se estabelecer um paralelismo entre o modo de ser de Paulo e a autarquia desses filósofos. E isso vale também para os destinatários de suas cartas (cf. 1Tm 6,7; lTs 5,14; 2Ts 3,6ss). É salutar, por exemplo, ler o que ele diz na sua primeira carta, quando orienta a incipiente comunidade dos tessalonicenses sobre como se comportar numa sociedade pluralista: "Não extingam o Espírito, não desprezem as profecias; examinem tudo e fiquem com o que é bom" (1Ts 5,19-21). Evidentemente essa exortação se destinava, em primeiro lugar, às relações dentro da comunidade. Mas podemos perguntar se, de algum modo, não espelhava também a busca comum da verdade, podendo extrapolar a própria comunidade. Do ponto de vista temático, a exortação parece ser eco da postura respeitosa e tolerante de Gamaliel, professor de Paulo segundo os Atos dos Apóstolos (5,34-39; 22,3). Mais interessante ainda é a oração de Paulo em Fl 1,9-10: "Este é o meu pedido: que o amor de vocês cresça cada vez mais em perspicácia e sensibilidade em todas as coisas. Desse modo, poderão distinguir o que é melhor e assim chegar íntegros e inocentes ao dia de Cristo". Note-se que distinguir se diz dokimazein, verbo normalmente usado para testar pronunciamentos proféticos; há, portanto, um exercício a ser feito, o discernimento; o que é melhor se diz ta diapheronta e significa literalmente "as coisas que diferem"; essa expressão está muito ligada à ética estóica (ou seja, ao princípio de adiaphora = as coisas em si mesmas não são boas nem más). Paulo crê que os filipenses poderão chegar juntos à descoberta daquilo que é melhor para eles. É evidente que Paulo se serve do pensamento estóico e ensina a fazer o mesmo. Ele tem em comum com Epiteto, filósofo estóico do século I, muito mais de quanto imaginamos. Esse filósofo dizia que "o caminho para a felicidade é parar de preocupar-se com o que está além do nosso poder" e que "homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas se rejubila com as que tem" (cf. Fl 4,10ss). O monopólio da verdade não é algo que fica bem em Paulo. Se vivesse hoje, procuraria, de todos os modos e com todos os meios, buscar a verdade em companhia com tantos que também a desejam. Num mundo virtual como o nosso, onde o navegador não é simples passageiro, mas sobretudo piloto, não há alternativa senão buscar juntos a verdade.
3. Comunidades de iguais Que visão tinha Paulo da sociedade em geral e, de modo específico, da escravidão no contexto do império romano? Muitos — é a leitura tradicional — sustentam que Paulo era indiferente perante essa cruel situação. Isso pode nos anestesiar diante das grandes questões que afetam a humanidade, caso sejamos também nós indiferentes às antigas e novas formas de servidão do nosso tempo. É oportuno, portanto, perguntar-nos como evangelizaríamos com essa mentalidade. Apesar de viver num ambiente de imperialismo apoiado pela força das armas que geram escravidão (perda da liberdade) e exploração (perda dos bens), sustentadas pela ideologia da "paz romana", Paulo manteve bem alto o primado da liberdade, como se quisesse dizer a todos: sem liberdade não há nem pessoa, nem cristão, nem comunidade, nem Cristo. É clássica a afirmação de G1 5,1: "Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres. Portanto, fiquem firmes e não se submetam de novo ao jugo da escravidão". A frase tem uma afirmação categórica, uma das grandes convicções de Paulo, talvez a maior ou a primeira. A ação de Cristo em favor dos cristãos é essencialmente um ato de libertação. Seria simples libertação espiritual, do pecado? Claro que não. A libertação é plena, total, irreversível. Não nos esqueçamos de que os gálatas, na quase totalidade, eram efetivamente escravos. Formavam comunidades de pessoas escravizadas e — o que pesa ainda mais — altamente cobiçadas nos mercados de escravos espalhados pelas grandes cidades do império. Um escravo gálata custava mais do que os outros, era "artigo de primeira". Paulo tira conseqüências dessa afirmação, ordenando que não se submetam "de novo" ao jugo da escravidão. Claro, a seguir mostra qual é sua preocupação principal, ou seja, a questão dos judeu-cristãos que, com a imposição da Lei e da circuncisão, escravizam mais uma vez aqueles que foram libertos em Cristo e por Cristo. A ação de Cristo nos libertou para sempre, mas as pessoas podem se tornar de novo escravas. E qualquer forma de escravidão agride a ação fundamental de Cristo em favor das pessoas. Na mesma carta aos Gálatas ternos importante convicção de Paulo, um dos princípios essenciais para entender seu pensamento: "Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo" (3,28). Essa é, provavelmente, uma fórmula batismal usada nas comunidades de Paulo. Afirma categoricamente a eliminação de todas as desigualdades, a fim de mostrar claramente os resultados da liberdade proporcionada por Cristo Jesus. Tornamo-nos uma só coisa com ele, fazendo desaparecer as diferenças por causa de raça (entre judeu e grego, modo tradicional de os judeus dividirem a humanidade em dois blocos), as diferenças de classe (escravo e homem livre, as duas formas de dividir socialmente a humanidade) e também as diferenças por causa do gênero (homem e mulher). Notemos, no que se refere à escravidão, que não é possível "espiritualizar" a questão, como se pudéssemos dizer que se trata de libertação espiritual, do pecado etc., pois, nesse caso, deveríamos perguntar quem seriam os "livres". Se essa questão nasceu, de fato, da catequese batismal de Paulo e de seus sonhos de liberdade, é interessante olhar para o que fazemos, o que dizemos e o que queremos quando nos envolvemos com o batismo dos futuros cristãos. Que programa de vida anunciamos? Que tipo de catequese apresentamos? Que tipo de convicção alimentamos? Tudo leva a crer que Paulo semeava no coração das pessoas (adultos, evidentemente) e das comunidades um ideal libertador destinado a produzir frutos. Pergunta-se, porém: por que isso não se concretizou logo? Porque provavelmente havia um abismo entre a consciência (convicção do primado da liberdade) e a prática, marcada pela escravidão. Paulo, quando não podia contra o dragão da escravidão, semeava sonhos de libertação e de liberdade em Cristo. É o que podemos ver ao longo de suas cartas. Concretamente, muitas vezes encontrou cristãos escravos de patrões não cristãos. Parece ser o caso das exortações de Ef 6,5-9 e Cl 3,22-4,1 (o mesmo não acontece em 1Tm 6,1-2). Impossibilitado de abolir o sistema social escravo, introduz dois princípios que devem reger as relações entre senhores e escravos: o mútuo respeito (um escravo obediente e um patrão que deixa de lado as ameaças) e o único senhorio para ambos: de Jesus Cristo, que não faz distinção de pessoas. O escravo, ao obedecer, não faz distinção, como se estivesse obedecendo a Cristo; o patrão, ao deixar de ameaçar, aproxima-se dos gestos do Senhor, que não faz distinção de pessoas (a vantagem, decerto, continua sendo do patrão, mas as diferenças foram pelo menos encurtadas). Mais significativa ainda é a carta a Filemon. Trata-se de um texto dirigido ao patrão Filemon por causa do escravo Onésimo. Paulo se tornou "pai" de Onésimo, gerando-o na prisão, ou seja, batizando-o. Pede na carta que Filemon acolha Onésimo já não como escravo, mas como irmão. Onésimo (nome que significa útil), enquanto escravo, era inútil. Como irmão e cristão livre, será extremamente útil para Filemon. Paulo podia dar ordens a respeito dessa questão. Mas preferiu pedir por amor. O amor tem suas próprias leis, mais fortes que os códigos frios e externos. O amor de Paulo, Filemon e Onésimo deram consistência à convicção do apóstolo: "Não há mais diferença entre escravo e homem livre" (G13,28; 1Cor 12,13). Trabalhando com as comunidades, Paulo começou a desmontar o mecanismo da escravidão. Podia dar ordens a Filemon, mas crê mais na força do amor que dos decretos.
4. Colaboração Colaboração é um dos itens mais necessários hoje em dia. A pessoa que entende de tudo, que sabe tudo e tem respostas para tudo é uma chata arrogante, além de provocar a inflação religiosa, como se o Espírito fosse propriedade de uma pessoa. Também numa comunidade de fé: o reconhecimento de que o Espírito age livremente em cada pessoa, concedendo-lhe dons, suscita novas pastorais e abre caminhos novos. Paulo não agia sozinho. Seus colaboradores mencionados em Atos e nas cartas beiram a centena de pessoas. Mas certamente a superam, pois freqüentemente há irmãos anônimos entre seus companheiros, de sorte que Paulo deve ser visto como alguém que soube coordenar energias e talentos, mesmo quando estava preso (cf., por exemplo, a carta aos Filipenses; 2Tm 2,9). E, nessa tarefa, as mulheres não estavam ausentes. O texto mais eloqüente nesse sentido é Rm 16. Aí são citadas 11 mulheres, das quais Paulo reconhece o esforço e a dedicação. Para cada uma há palavras carinhosas que demonstram gratidão e afeto. Notemos, por exemplo, o que se diz de Febe, certamente a portadora da carta aos Romanos e muito provavelmente a pessoa que iria preparar a viagem de Paulo à Espanha, razão pela qual necessitaria de ajuda (16,1-2; 15,24.28; cf. 1Cor 9,5): "ela tem ajudado muita gente e a mim também". Especial atenção merece Júnia, esposa de Andrônico (16,7), chamados de "apóstolos importantes". Os que negavam a Paulo o título de apóstolo ficaram horrorizados com o fato de ele chamar uma mulher de "apóstolo importante". Talvez por isso alguns manuscritos antigos tenham masculinizado Júnia, acrescentando um "s" ao seu nome — Júnias é nome de homem. Esses e outros pequenos detalhes servem para derrubar o velho preconceito antifeminista de Paulo ou, pelo menos, apontam para um caminho diferente do tradicional. É certo que subsistem aqueles textos nitidamente desfavoráveis às mulheres (1Cor 11,2ss; 14,34 etc.), que devem ser vistos em seu contexto e em seus condicionamentos culturais. Um texto que faz pensar é 1Cor 11,2-16, conhecido como "o véu das mulheres". Rendeu muita discussão e distorções sem fim. Além disso, nota-se que Paulo se perde numa exegese estranha, de tipo rabínico. Lá pelo fim proclama a igualdade da mulher e do homem diante de Deus (11,12), mas torna a se enrolar nos laços da exegese rabínica (11,13-16). Se eliminamos os condicionamentos culturais para ficar com o que realmente conta, penso que deveríamos dar a esse trecho um título mais ou menos assim: "As mulheres profetizam". De fato, esta é a grande novidade para as mulheres de Corinto: elas podem profetizar. Em seguida, examinando a importância que Paulo confere a esse ministério ou carisma, pode-se muito bem reconhecer que o princípio de Gl 3,28 foi respeitado. O mal disso tudo é que muita gente se prendeu ao condicionamento cultural (ter de usar o véu para profetizar) e esqueceu que a mulher podia profetizar, em pé de igualdade com os homens. A aberração que perdura até hoje é esta: a mulher continua usando véu e se vê impedida de profetizar na assembléia litúrgica. Aquilo que era condicionamento cultural tornou-se norma. Aquilo que mantinha bem elevado o princípio de Gl 3,28 foi abandonado. Em Corinto (e somente aí) usar véu tinha importância para Paulo. Era um sinal de que a mulher podia profetizar sem que alguém a tomasse por oportunista ou algo pior. Paulo ordena às coríntias o uso do véu porque deseja preservar- lhes a dignidade. Lembremos, contudo, que é simples dado cultural. Em outro contexto essa norma desaparece. Na mesma carta há um trecho que parece contradizer tudo isso. Pertence ao mesmo contexto litúrgico do cap. 11 e diz: "Que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que a mulher fale nas assembléias" (14,34-35). Não há contradição entre um texto e outro. Estamos diante da dura realidade das comunidades de Corinto, onde, ao que parece, as mulheres não haviam tido as mesmas oportunidades de instrução que os homens. O princípio de Gl 3,28 não pode ser aplicado por causa da defasagem concreta dessa comunidade: as mulheres estão nitidamente em desvantagem em relação aos homens quanto à instrução. Note-se que o contexto é de celebração e que Paulo diz: se as mulheres desejam instruir-se em alguma coisa, perguntem em casa aos maridos. Diante da desvantagem das mulheres, cria-se novo espaço (a casa) onde elas, com a ajuda dos maridos (culturalmente mais abastados naquela cidade), recuperam o ideal de igualdade sonhado. A casa, e não a celebração, torna-se o lugar em que se dá às mulheres uma instrução personalizada, para que o desnível desapareça. A celebração continua sendo celebração, e não o lugar de perguntas intermináveis. Pode-se perguntar, então: terminada a instrução nas casas, continuariam as mulheres caladas nas celebrações? Um texto semelhante se encontra na primeira carta a Timóteo. Os que rejeitam esse texto, afirmando simplesmente não ser de Paulo, ignoram que, mesmo assim, a proibição de falar permanece. É melhor, portanto, enfrentá-lo, seja ou não um texto de Paulo. O contexto é igualmente litúrgico: "Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda a submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Portanto, que ela conserve o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade" (2,11-15). Aqui, como em 1Cor 14,34-35, se trata de instrução. Além de todos os condicionamentos culturais desse texto, é importante ter presente a possibilidade de que, nas comunidades sob a responsabilidade de Timóteo, talvez pela mesma defasagem apontada em Corinto, a instrução tivesse sido confiada apenas aos homens. As mulheres, ao que parece, exerciam papel de servidoras, como sugere a provável diaconia de 3,10. O princípio de GI 3,28, portanto, estaria de certa forma sendo respeitado, apesar da nítida separação de ministérios, sendo a instrução atribuída exclusivamente aos homens por força das circunstâncias. O texto de Ef 5,21-33 fala da relação marido-mulher. Proclama a absoluta igualdade entre os sexos diante de Deus ("Sejam submissos uns aos outros no temor a Cristo", 5,21). Contudo, visto que a carta fala dessa relação olhando para a relação Igreja-Cristo, a mulher acaba sendo subordinada ao marido. Esse texto é eclesiologicamente correto, pois a Igreja sempre será submissa a Cristo, mas é culturalmente condicionado. Se vivesse em nossos dias, o autor desse texto desmembraria os dois casos, sem construir a relação esposa-esposo sobre a relação Igreja-Cristo. O condicionamento cultural embaçou o princípio de G13,28. Apesar disso, o texto dá muitos passos adiante, sobretudo quando diz que o comportamento do marido para com a esposa deve espelhar-se na ação de Cristo em favor da Igreja. Em 2Tm 3,6-7 há um texto que desmascara homens inescrupulosos que se aproveitam da religião para explorar os fracos. O texto, sem dúvida, tem um ar de desprezo para com algumas mulheres, chamando-as de "mulherzinhas" e apresentando as fraquezas delas: "Entre esses encontram-se os que entram nas casas e cativam mulherzinhas cheias de pecados e possuídas por todo tipo de desejos, que estão sempre aprendendo, mas não conseguem chegar ao conhecimento da verdade". O contexto é amplo e se refere também à instrução cristã. É culturalmente condicionado e depreciativo em relação a algumas mulheres que, se fossem de fato assim frágeis e estivessem tão fragilizadas, deveriam receber maior atenção por parte de Timóteo. O contexto, porém, chama a atenção dos exploradores e aproveitadores (os homens encarregados da instrução). Aproveitando-se da fragilidade dessas mulheres, cometem, em nome da religião, as maiores arbitrariedades.
5. Pioneirismo As cartas, como se sabe, não são o primeiro passo no processo de evangelização empreendido por Paulo. Ele costumava visitar pessoalmente uma região, privilegiando um grande centro urbano, sem ter de colher onde outros semearam (2Cor 10,13-15; Rm 15,23-24). Aí fundava um núcleo de cristãos que, como fermento na massa, alcançaria outras pessoas, formando novos grupos na metrópole e no seu entorno, e, quando podia, visitava pessoalmente as comunidades (At 15,36) ou enviava um de seus colaboradores (2Cor 8,16-18; 12,18). Somente neste caso, ou até na impossibilidade da visita de um colaborador seu, é que Paulo envia uma carta à comunidade, buscando aprofundar, esclarecer, animar, exortar, corrigir etc. (cf. 1Ts 3,10). Paulo é criativo no processo de evangelização. Com toda a certeza, podemos afirmar que foi pioneiro na utilização da carta como meio de comunicação entre ele e as comunidades e até entre as próprias comunidades (Cl 4,16). Evidentemente, não é o inventor da carta, meio de comunicação cuja origem se perde nas brumas do passado. É oportuno perceber como Paulo se serve da rede de comunicação criada pelo império romano. Uma das características do império foi a abertura de estradas que interligassem os grandes centros urbanos daquele tempo. As estradas serviam, entre outros objetivos, para a locomoção rápida das tropas de ocupação, para o escoamento dos tributos e para a agilização das comunicações entre as cidades e províncias do império. Ao longo dessas estradas, aproximadamente a cada 30 quilômetros, havia entrepostos dos correios, providos de hospedaria e cavalos descansados. Com esses recursos, uma autoridade de determinada província podia comunicar-se por carta com rapidez capaz de causar inveja aos correios contemporâneos. Paulo, portanto, não foi refém dos meios tradicionais de evangelização, como a pregação e a catequese orais. Foi inovador no campo da evangelização, introduzindo em suas atividades pastorais essa nova forma de comunicação, a carta. E, reconheçamos, grande parte da memória de suas ações pastorais e de sua teologia chegou a nós graças às cartas que escreveu. Outro detalhe significativo é a mudança da sinagoga para as casas como lugar de encontro e celebração. Não é possível determinar com exatidão quando se deu essa passagem. Talvez tenha sido um processo lento (cf. At 16,1ss; 18,1ss). De todo o modo, isso foi determinante para a promoção e liderança feminina nas casas, onde a mulher é anfitriã, dona de casa, coordenadora e animadora de comunidades. Perguntamo-nos o que isso representa hoje para nós, amarrados a uma estrutura arcaica (a paróquia) e a uma hierarquia masculina. O que faria Paulo em nosso lugar?
6. Sem concluir Quem conhece bem o apóstolo Paulo, amigo de Jesus Cristo e amigo das comunidades, tem grandes possibilidades de ser bem-sucedido pessoal e pastoralmente. Um ano a ele dedicado pode ser o ponto de partida para mudanças e novos horizontes na comunidade. "Fiz-me tudo para todos." Sem uma presença forte de Paulo, tudo se torna mais difícil na pastoral. O conhecimento das cartas, ao contrário, imprime nas comunidades o dinamismo necessário para continuar acreditando no bem .
Pe. José Bortolini, presbítero paulino, mestre em Bíblia pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, autor de diversos livros publicados pela Pia Sociedade de São Paulo - PAULUS
Todo texto, “LIBERTAR PAULO”, foi Extraído de Vida Pastoral; maio-junho 2008; ano 49; n. 260, páginas 6 a 12.
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