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TANATOLOGIA, MORTE E VIDA


Por: Entrevista do Dr. Evaldo D'Assumpção para o Dedo de Prosa

Janeiro de 2009

Tanatólogo e Biotanatólogo, o Médico Evaldo Alves D’Assumpção, referência no Brasil na área, é o entrevistado especial da primeira edição de 2009 do Dedo de Prosa – Jornal da Terceira Idade. Ele foi o introdutor desta atividade médico-psicológica em Minas Gerais e um dos seus pioneiros no país. Dr. Evaldo é fundador e primeiro Presidente da SOTAMIG, Sociedade de Tanatologia de Minas Gerais. Autor de diversos livros de biotanatologia, bioético e estudo de religiões é renomado conferencista em todo território nacional, Membro e Presidente de 2006 a 2008, da Academia Mineira de Medicina, Membro Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, do Instituto Mineiro de História da Medicina e Academia Campobelense de Letras.

Dedo de Prosa – Após mais de 30 anos estudando e trabalhando com o tema em questão, como o Sr. Encara a morte?

Dr. Evaldo – Com a naturalidade com que ela deve ser encarada. Todo medo da morte, toda rejeição a esta realidade absoluta para todas as formas de vida, é puramente cultural. Estudar, refletir, meditar sobre a finitude da vida nos proporciona uma enorme paz interior e um maior desejo de aproveitar, genuinamente, o tempo de vida que nos for concedido. Conviver bem com a morte é descobrir os encantos do viver.

Dedo de Prosa – Porque algumas pessoas têm medo de morrer e outras não?

Dr. Evaldo – O medo da morte está relacionado com uma série de fatores. Para entendê-los é preciso diferenciar o medo da morte, do medo de morrer. O medo da morte é um medo cultural. Por isso algumas civilizações, quase sempre interpretadas como “primitivas”, não o cultivam. Já as civilizações modernas, dominadas pelo capitalismo selvagem e o consumo compulsivo, que trazem como conseqüência um enorme apego a tudo e a todos, estas carregam o pesado fardo do medo da morte. Que é, na realidade, o medo de perder. Perder aquilo que se conquistou, aquilo que se tem como posse individual. Sejam os títulos, sejam os cargos, sejam os bens materiais, sejam as pessoas.

Desconhecendo a impermanência de tudo e de todos nesta realidade de tempo e espaço em que vivemos, enganam-se a si próprios imaginando-se “donos” de alguma coisa ou de alguém. Na realidade somos somente “zeladores” do que julgamos possuir. Se zelarmos bem por essas coisas e pessoas, certamente as teremos por muito tempo, talvez nosso tempo de vida. Caso contrário, rapidamente as perderemos. Por tudo isso podemos afirmar que o medo da morte é medo da vida. Temos medo de viver, pois nas palavras de Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”. Viver é estar sempre em situação de perder, em condição de morrer.

Já o medo de morrer, ou seja, o medo da forma pela qual vai acontecer a nossa própria morte, este é o medo natural, desde que não exagerado, a ponto de se tornar uma fobia. Ou seja, um pavor intenso que nos imobiliza e nos impede de viver inteiramente a vida. O medo natural do morrer é o nosso instinto de sobrevivência, aquele que nos faz evitar situações onde possamos nos machucar, sofrer dores, encontrar a morte de forma traumática.

Dedo de Prosa – Quando este medo de morrer é excessivo, o que fazer?

Dr. Evaldo – Tanto o medo da morte, de qualquer intensidade, quanto o medo excessivo do morrer, necessitam de cuidados. Ambos nos imobilizam, nos impedem de viver plenamente. Até quatro décadas atrás, não existiam cuidados específicos para essas situações. As fobias – ou medo compulsivo – eram tratadas genericamente pelos psiquiatras e pelos psicólogos. Contudo, com o surgimento da Tanatologia, na década de 60, apareceram técnicos específicos para lidar com estas situações relacionadas às perdas e à morte. Com o crescimento dessa nova ciência, seu campo de atuação que inicialmente era somente para os enfermos em fase terminal de suas doenças, ampliou-se para as situações de luto, para os sofrimentos relacionados às perdas, não somente de quem estava morrendo, mas dos que estavam vivendo e vivendo mal. Por isso hoje preferimos chamá-la de Biotanatologia. Bio vem do grego, significa vida. Thanatos é o deus da mitologia grega que representa a morte. E Logos significa estudo. Portanto, Biotanatologia é o estudo da vida, vista pela ótica da morte.

Dedo de Prosa – Como lidar com a morte e com as perdas de uma maneira geral?

Dr. Evaldo – A esta pergunta costumo responder que não existe uma “receita de bolo” apropriada para todas as situações. Cada pessoa tem um componente específico que lhe dá o medo de perder, o medo da morte.

Muitos temem o encurtar de sua vida porque não a vivem plenamente. É como se estivessem em débito para consigo mesmos. São aqueles que deixam tudo para depois, aqueles que priorizam o trabalho e o lucro em detrimento da qualidade de vida.

Por isso, a terapia de suporte em Biotanatologia é como vacinação contra uma epidemia. Antes de ser contaminado pela doença, uma simples vacina pode prevenir contra o desconforto, o sofrimento e até a morte. Nossa cultura é demasiadamente “machista” no sentido de que “não preciso de terapias psicológicas, pois sou forte e enfrento tudo sozinho!...” Muito bonito, até que se vê de cara com a sua própria fragilidade, quando a morte passa por perto ou lhe ameaça diretamente. Aí a pessoa desaba e vai sofrer muito mais. Ou então vai correr atrás de uma ajuda que poderia ter recebido em condições bem mais favoráveis. Antes tarde do que nunca...

Por isso não existem fórmulas mágicas tipo “auto ajuda”. Cada pessoa necessita fazer um trabalho pessoal bem orientado por um profissional especializado e competente, para descobrir e superar as razões do seu medo.

Dedo de Prosa – Em um dos seus textos o Sr. Diz que “A morte é a nossa melhor professora de vida”, o que isso significa?

Dr. Evaldo – Significa que tomar a consciência da própria finitude nos dá uma visão totalmente diferente da vida. Deixamos de ser apegados a tudo e a todos, aprendemos a conviver com nossas limitações, aceitamos as perdas, não passivamente, mas fazendo a cada uma delas um verdadeiro trampolim para ganhos maiores. Descobrimos que começamos nossa vida com a morte. Morremos para a vida dentro do útero materno para ganharmos esta vida num espaço infinitamente maior e com mais possibilidades do que a limitadíssima vida intra-uterina. Depois, no decorrer da nossa vida, perdemos (morremos) inúmeras vezes mas sempre ganhamos algo logo em seguida. A toda perda sempre corresponde a um ganho. Se não percebemos isso é porque estamos totalmente desfocados da realidade da vida.

Dedo de Prosa – O que o Sr. Imagina que irá acontecer após a sua morte?

Dr. Evaldo – Todos nós gostaríamos de saber isso. Mesmo aqueles que não acreditam em nada, gostariam de saber para então terem suas certezas. Nenhuma ciência, nenhuma tecnologia por mais sofisticada que seja é capaz de provar, no uso de exata metodologia científica, se existe ou não existe vida após a morte. E, se existir, como será. Contudo é através da espiritualidade que permeia a história do ser humano desde a sua origem, milhares de anos atrás, que podemos vislumbrar a realidade da vida após a morte. Como cristão, católico, tenho absoluta convicção de que esta vida material é apenas uma pequeníssima etapa da nossa história, pois fomos criados para um objetivo maior, incapaz de ser alcançado nesta realidade limitada pelo espaço e pelo tempo em que agora vivemos. Creio que existe um Deus criador de todas as coisas, o qual, por ser um Ser Superior, está acima de nossas mesquinhezas, de nossos julgamentos, de nossa vontade de castigar aqueles que nos contrariam, de vingar tudo aquilo que nos ofende. Em assim sendo, creio que após a morte entraremos todos na plenitude da felicidade – que só Deus existe – e seremos felizes por descobrir uma realidade onde a inveja, a ganância, a rivalidade, a ambição, a crueldade, a violência, o sectarismo, o desamor, nada disso existe, seja lá em que proporção for.

Provar cientificamente, repito, não há como. Mas quem perscrutar no mais íntimo do seu eu descobrirá que ali existe algo inexplicável pela nossa vã filosofia e pretensiosa ciência. É a chama divina em nós.

Dedo de Prosa – Quem está de luto o que pode fazer para diminuir o sofrimento e como ajudar a um enlutado?

Dr. Evaldo – O luto, ao contrário do que muitos pensam, não é uma condição natural que evoluirá espontaneamente. É evidente que, para algumas pessoas isso pode acontecer e por isso assim parece. Contudo o luto é um processo psicológico pelo qual todas as pessoas passam quando sofre uma perda, seja ela qual for. Existe luto na separação de um casal, existe luto na perda de um emprego, existe luto numa perda material significativa, existe luto na morte. Este último é o mais reconhecido, mas os anteriores também são importantes. Todos eles necessitam de apoio específico, pois dependendo de como evoluírem, poderão se tornar até mesmo patológicos, como danos graves para quem não os elaborou convenientemente.

Com a Biotanatologia temos recursos eficientes para dar apoio psicológico a essas pessoas, não para que elas se esqueçam – no caso de morte – da pessoa amada, mas para que ela possa lembrar sim, contudo sem sofrer. Podemos dizer que é para transformar uma saudade dolorosa numa saudade gostosa.

A terapia de suporte para enlutados ajuda as pessoas a redescobrirem a alegria de viver, mesmo depois de uma perda significativa que lhes tenha acontecido.

Dedo de Prosa – O idoso que ultrapassou ou está dentro da expectativa de vida do seu país, no Brasil, 75 anos para a mulher e 70 anos para o homem. Como viver tranquilamente, sem medo de morrer?

Dr. Evaldo – No Brasil, uma grande conquista para o idoso foi o seu estatuto legal, que infelizmente muitos não conhecem e a maioria tem receio de fazer cumprir. Boa parte desse receio está ligada à tola vaidade de se mostrar jovem, como se a juventude fosse a melhor coisa do mundo. Quem olha a sua própria história com acuidade e critério, vai descobrir que a juventude é uma etapa da vida onde o vigor físico predomina, mas falta a experiência indispensável à percepção e à realização de todas as coisas. Idoso é uma palavra que vem de “idadoso”, união de “idade” com o sufixo “oso”. Idade é o tempo de vida que uma pessoa tem e o “oso” significa abundância. Daí palavras como bondoso, caridoso, maldoso, etc. O idoso é pois aquele que viveu bastante e portanto tem uma história para contar. Sempre afirmo que estou onde estiver, por causa dos meus 70 anos bem vividos. É por causa da minha história, daquilo que aprendi e daquilo que fiz no tempo de vida que tenho. Portanto, o Estatuto dos idosos vem nos garantir alguns benefícios – muitos ainda não respeitados – que não estamos recebendo de graça, mas porque conquistamos com a nossa história. Os jovens de hoje serão os idosos de amanhã (se chegarem lá, considerando o tipo de vida que levam, os vícios e desregramentos que hoje valorizam...) e certamente descobrirão como tais benefícios são necessários e justos.

Quanto a viver sem medo de morrer, basta que tenham vivido plenamente, que não tenham dívidas para com a vida. E que continuem vivendo assim – ou passem a viver assim – enquanto vida tiverem.

Dedo de Prosa – Como a Biotanatologia explica o tempo de vida de uma criança que morre com poucos dias de nascida e o de um idoso com 95 anos, por exemplo?

Dr. Evaldo – O tempo é uma questão cultural de quem vive atrelado a calendários, relógios e outros marcadores de tempo. Alexandre Magno nasceu em 336 aC assumindo o império da Macedônia com 20 anos de idade. Após 13 anos já havia conquistado quase todo mundo conhecido, morrendo aos 33 anos de idade. Hoje, os jovens de 30 anos ainda estão batalhando por um lugar ao sol nas universidades ou no mercado de trabalho. O que significa tempo? Uma criança que morre com poucos dias de nascimento, enquanto “indivíduo” ela viveu tempo suficiente para a sua realização pessoal. Contudo, as expectativas dos pais, parentes e amigos ficarão totalmente frustradas, pois todos esperavam que ela fosse um grande médico, engenheiro, empresário, etc. Enfim, o que a sua família tivesse predominantemente entre seus membros. Entretanto, quem pode afirmar que isso seria verdade? Nós fazemos expectativas demais em relação aos outros. Mas, se lermos a 2ª carta de S. Pedro, ali ele afirma: “para Deus, um dia é como mil anos”. Diante da realidade maior para a qual fomos criados, se vivermos um dia ou cem anos, isso não fará a menor diferença. Aqui sim, as expectativas humanas “criam” a diferença. Por isso sofremos tanto e lamentamos tanto: “Ele morreu tão jovem...”

Dedo de Prosa – Como o sentimento de perda se processa em cada ser humano. O que define o tamanho da perda para a pessoa?

Dr. Evaldo – Costumo brincar dizendo que somente quando inventamos o “dorímetro”, aparelho para medir a dor que alguém sente, podemos dizer que a minha ou a sua dor é maior que a do outro. Como esse aparelho não existe e certamente nunca existirá, pois a dor não é mensurável, temos de ficar com o que quem sofre nos fala. Dizem que a dor pela perda de um filho é a maior que existe. Contudo na minha clínica já escutei várias mães dizendo que a morte do filho foi um alívio. Traficante, violento, agressor dos pais e dos irmãos, sem qualquer possibilidade visível de recuperação, ao ser morto pela polícia foi um alívio para todos. Portanto podemos dizer que o “tamanho” da dor de uma perda é proporcional à relação amorosa que existia entre as pessoas. Mas também proporcional ao “tamanho” do apego, do sentimento de “ser dono” daquele que partiu.

Dedo de Prosa – Nos seus cursos, encontros, palestras e reuniões, o que mais chama sua atenção na discussão vida e morte?

Dr. Evaldo – O desespero do ser humano para viver a vida, o medo que ele tem de se lançar na experiência fundamental e maravilhosa do viver intensamente tudo o que de genuinamente bom existe, os preconceitos que o levam a priorizar a conquista de bens materiais, de honrarias, o desfrutar de prazeres tão fugazes que no dia seguinte já trazem desconforto, mal estar e sofrimento. A incapacidade do ser humano de amar e usufruir o verdadeiro amor, que não é posse, mas é partilha, que é caminho de duas vias: eu te amo, tu me amas. O despreparo do ser humano, especialmente aqueles regidos pela cultura ocidental – que hoje contamina intensamente o mundo oriental – para lidar com esta realidade inevitável para todos os seres vivos: a morte. Vegetais morrem, animais irracionais morrem, nós morremos.

Também me chama a atenção o fato de que, vivendo numa sociedade que se diz cristã, a possibilidade da morte seja tão aterrorizante. Ora, se acreditamos – ou dizemos fazê-lo – em Deus, em uma vida espiritual após a morte, que certamente é impregnada de uma felicidade infinitamente superior a que encontramos nesta realidade material, como podemos ter pavor – esta é a palavra certa! – de morrer? Como podemos sofrer tanto pela possibilidade de passar pela porta que nos leva ao encontro definitivo com aquele que alardeamos amar tanto, que é o nosso criador, nosso Pai eterno, nosso desejo final?

Será tão fraca a nossa fé? Ou será conseqüência do tamanho descomunal do nosso ego e do nosso apego aos bens materiais, às pessoas que nos enganamos julgando possuir numa realidade permeada pela impermanência?

 

Serviço: Núcleo Fênix de suporte a enlutados, enfermos graves e seus familiares.

Rua Marquês de Maricá, 284, Bairro Santo Antônio,

Telefone: (31) 3296-7420 e (31) 3296-6978

www.nuclefenix.com



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